Quando a vida se torna história: limites e possibilidades do gênero biografia

 



FRANCISCO DE ASSIS

 

Em um texto de apresentação dos projetos desenvolvidos pelo site TextoVivo[1], mantido na Internet pela ABJL (Academia Brasileira de Jornalismo Literário), biografias são definidas como “registros permanentes da singularidade humana”; no mesmo espaço virtual, como complemento da asserção, ainda está escrito: “toda pessoa possui (e merece) uma biografia”.

Considerada como um dos gêneros do jornalismo literário, a biografia une, em uma só narrativa, elementos históricos, literários e, obviamente, técnicas jornalísticas. É praticamente um convite feito ao escritor para que abrace a fascinante tarefa de perpetuar as lembranças e a trajetória de um personagem famoso ou anônimo.

Satisfação profissional à parte, as histórias de vida também são compreendidas como metodologia de pesquisa por cientistas sociais, que recuperam fatos importantes com base no registro de experiencias pessoais. No caso da história, por exemplo, esse método é um artificio para se traçar um retrato oficial do depoente, conforme defende Meihy (1996). Já o campo da comunicação utiliza o procedimento para desvendar o passado e o íntimo de atores sociais, como observa Gobbi (2005).

Partindo dessas premissas e de outras que serão abordadas mais adiante, este texto procura reunir uma parte daquilo que já foi dito sobre o gênero e também compartilhar as vivencias profissionais de três jornalistas com vasta experiencia em escrever biografias: Ruy Castro, Regina Echeverria e Fernando Morais. Por isso mesmo, estas linhas fazem uma reflexão acerca dos limites e das possibilidades de se trabalhar com a história de pessoas já falecidas e também com a vida de personagens vivos, que, muitas vezes, sentem-se no direito de opinar sobre como suas histórias devem ser escritas.

Espera-se que este registro possa contribuir para novas discussões em torno do jornalismo biográfico e, consequentemente, estimular a realização de novos projetos que recuperem, registrem e multipliquem as histórias de pessoas, conhecidas ou desconhecidas, que tem algo interessante para contar.

 

AS VÁRIAS FACES DO GÊNERO

O primeiro passo para se falar em biografia é pontuar alguns conceitos que norteiam o gênero. O primeiro deles é que esse tipo de escrita, ao ver de alguns estudiosos, está intimamente ligado ao jornalismo literário, adotado por profissionais que procuram o desprendimento do factual e se achegam ao aprofundamento dos assuntos abordados, com a finalidade de mostrar o que pode estar debaixo da superfície da informação. Entretanto, essa afirmação esbarra em algumas controvérsias.

É interessante observar que, mesmo seguindo por essa linha reflexiva, a biografia não pode ser considerada apenas como uma prática jornalística, exatamente por se revestir de um caráter híbrido. Vilas Boas (2002), por exemplo, destina um capítulo de sua obra para discursar “sobre as indefinições” dessa produção; para ele, seria injusto dar a ela uma única classificação.

Seria inviável sustentar que “biografia jornalística” é a modalidade elaborada e escrita por um jornalista com experiencia profissional em jornal, revista, rádio, televisão e/ou websites de conteúdo jornalístico periódico ou não-periódico. Seria negar a transdisciplinaridade inerente à biografia e incorrer na mesma ilusão que tem acometido às vezes biógrafos desavisados e/ou pretensiosos (p. 16-17).

 

Na visão do autor, o trabalho do biógrafo, por si só, é uma “especialidade” e não exige que o mesmo seja “jornalista, antropólogo, astrônomo, físico ou historiador”. É por isso que escritores de diferentes naturezas – ou seja, tanto jornalistas quanto outros profissionais com experiencia com obras de ficção ou de não ficção – conseguem registrar histórias de pessoas de áreas completamente diferentes da de sua própria atuação. “Se as definições tivessem de estar circunscritas aos campos de formação, os jornalistas, especialmente, estariam muito restringidos. Teriam que escrever sobre a vida de jornalistas renomados” (VILAS BOAS, 2002, p. 17).

As ideias de Vilas Boas também são compartilhadas por Pena (2006), que aponta para o cruzamento do jornalismo com a história e com a literatura na construção de uma história de vida. Ele defende que o hibridismo sempre esteve presente no fazer jornalístico:

A biografia, portanto, é a parte do Jornalismo Literário que trata da narrativa sobre um determinado personagem. Ele é o fio condutor de todo o enredo. Os acontecimentos, por mais importantes que sejam, são apenas satélites. Tudo gira em torno da história de uma vida (p. 70).

 

Um olhar para a história também prova que essa concepção plural acompanha o gênero de longa data. Gobbi (2005, p. 87) conta que, na década de 1930, o resgate da trajetória de pessoas era encarado como uma contribuição para a pesquisa científica nos Estados Unidos:

Foram considerados dignos de contribuir somente para o controle e refutação de certas teorias; para a formulação de hipóteses; para a captação do subjetivo nos parâmetros da objetividade atribuídos aos processos sociais e para ilustração da dimensão temporal de um processo.

 

Mais para trás, nessa linha do tempo, ainda é curioso notar que, até a metade do século 18, os biógrafos enfatizavam aspectos generalizados de seus biografados e quase nunca se dedicavam a escrever sobre a trajetória de um único individuo, mas, sim, de um grupo de pessoas. Antes do período mencionado, também não havia a preocupação de reproduzir características pessoas dos personagens e o enfoque do texto era ditado pelas convenções de cada época, conforme explica Vilas Boas (2002, p. 33): “Os biógrafos antigos não exploravam as fontes presentes na casa de Alexandre, o Grande, por exemplo, e sim os sinais dos céus no dia de seu nascimento”.

O autor também revela que, somente depois de 1791, é que as biografias passaram a ser escritas sobre a vida de um único personagem. O marco dessa nova concepção do gênero, segundo ele, é o livro The life of Samuel Johnson, assinado por James Boswell. Ao que tudo indica, tal obra anunciou um novo tempo para o gênero biográfico, e seu formato se manteve como exemplo a ser seguido por mais de um século.

No Brasil, o que pode ser considerado como padrão na produção de biografias é o livro Um estadista no Império, de Joaquim Nabuco, publicado em 1899, sobre a vida do senador Nabuco de Araújo e, consequentemente, sobre o cenário político, econômico e social do Brasil durante a atuação do mesmo. A segunda referência considerável de que se tem notícia é de 1936: Machado de Assis, um estudo crítico e biográfico, de Lúcia Miguel Pereira.

Com o passar do tempo, os textos biográficos despontaram e já há quem garanta que são as obras preferidas entre os brasileiros. Dos inúmeros livros do estilo publicados por editoras nacionais, alguns clássicos podem ser apontados: Olga e Chatô, obras de Fernando Morais, sobre Olga Benário Prestes e Assis Chateaubriand, respectivamente; Mauá, assinado por Jorge Caldeira, que conta a vida de Irineu Evangelista de Souza; Estrela Solitária e Carmem, ambos de Ruy Castro, sobre Mané Garrincha e Carmem Miranda; Furacão Elis e Só as Mães São Felizes, da jornalista Regina Echeverria, biografias de Elis Regina e Cazuza – esse último, escrito a quatro mãos com Lucinha Araújo, mãe do biografado.

Seja produção de um jornalista ou não, o fato é que, ao longo dos séculos, as biografias despertam interesse nos leitores pelos mais variados motivos: pela capacidade de reunir elementos de múltiplas áreas, pela abordagem de curiosidades até então desconhecidas, pela empatia e identificação gerada por meio do texto, ou, simplesmente, pela fascinante trajetória do personagem abordado. Por isso mesmo, entre aqueles que se dedicaram a estudar tais produções, é mais do que presente a ideia de que não existe uma única definição para o gênero, em razão de suas diferentes faces.

 

QUESTÕES TEÓRICAS

Apenas a título de definição, é importante dizer que o gênero aqui abordado possui diferentes classificações. Gobbi (2005) e Vilas Boas (2002; 2003) destacam três tipos: 1) biografia; 2) perfil; 3) história de vida.

Na percepção dos autores, o primeiro é referente a textos mais extensos, publicados em livros, que conseguem acarretar uma carga maior de informações e detalhes importantes sobre a vida humana; essa classificação ainda possui uma vertente, a autobiografia, que pode ser escrita pelo próprio personagem por um ghostwriter[2].

Já o perfil pode muito bem ser publicado em livro ou em veículos impressos, como jornais revistas, em vista de seu tamanho reduzido. Também é caracterizado por evidenciar uma característica marcante do personagem e não necessariamente contar toda a sua trajetória.

Diferentemente das biografias em livro, em que os autores têm de enfrentar os pormenores da história do biografado, os perfis podem focalizar apenas alguns momentos da vida da pessoa. É uma narrativa curta tanto na extensão (tamanho do texto) quanto no tempo de validade de algumas informações e interpretações do repórter (VILAS BOAS, 2003, p. 13).

 

A categoria da história de vida, entretanto, é uma expressão mais ampla, cunhada por pesquisadores em Ciências Sociais que se valem da modalidade para humanizar fatos contemporâneos por meio de vivências individuais. “Na sua versão mais abreviada, a história de vida examina episódios específicos da trajetória do protagonista” (VILAS BOS, 2003, p. 17).

Do ponto de vista teórico, independentemente da definição que receba a narrativa sobre o passado e as experiências de uma pessoa, a biografia é vista, quase pela totalidade dos teóricos que sobre ela se debruçam, como um gênero capaz de despertar o interesse de uma grande massa de leitores. A curiosidade pela vida alheia e pela intimidade de outrem – principalmente em tempos de Big Brother – é algo que pode transformar a trajetória de uma personalidade ou de uma pessoa comum, mas que trilhou por um caminho ímpar, em um verdadeiro best-seller.

Diante de tal constatação, uma série de questionamentos é levada à tona por alguns autores. Hisgail (1996, p. 7), por exemplo, ao observar a explosão dos lançamentos de livros biográficos em meados de 1990 – segundo segmento que mais crescia no mercado editorial brasileiro, na ocasião –, pergunta se tal crescimento poderia ser definido como um sintoma social. Suas articulações resultaram na seguinte resposta:

O fato é que, assim como alguns procuram nos livros de auto-ajuda um mestre que lhes diga o que fazer, outros necessitam se identificar com pessoas que “deram certo” na vida. Seja como for, as biografias são sempre bem-vindas, apesar e graças aos efeitos que possam produzir no público consumidor.

 

Por outro lado, a empatia despertada no leitor nem sempre tem raízes 100% verídicas. Não que o biógrafo use de má fé para transformar a história de seu biografado em algo mais interessante do que o real permite que seja, mas há que se levar em conta que nem todos os fatos ocorridos ao longo de uma vida são rememorados com precisão por seus narradores. Em alguns casos, inclusive, o desejo de que uma situação houvesse sido de outra forma é tão grande que faz com que o próprio protagonista da ocorrência guarde uma imagem distorcida sobre o caso. O escrito colombiano Gabriel García Márquez (apud VILAS BOAS, 2003) disse, certa ocasião, que “a vida de uma pessoa não é o que lhe aconteceu, e sim o que ela lembra e como lembra”.

Chaia (1996, p. 81-82), por sua vez, disserta acerca da leitura de biografias com vistas a um fenômeno que denomina “reviver o outro”. Para ele, os leitores de obras do gênero absorvem a vida de um indivíduo, tornando-a uma “referência de ações e ideias”, mesmo que o conteúdo do texto apreciado não contenha informações completas ou totalmente verídicas:

O leitor processa, desta forma, uma segunda reescrita de vida do biografado, usurpando a experiência alheia (seja como enriquecimento individual ou até como avanço de pesquisas sociais) e facilitando o processo de compreensão do mundo: a vida do outro como possibilidade de conhecimento do real, já que ela se constitui como exemplo objetivado de vivencias valorizadas e dignificadas pela sociedade ou então por determinados grupos sociais.

 

Pena (2006), ao expor sua tese da “biografia sem fim”, na qual defende a construção de biografias subdivididas de acordo com as várias identidades do personagem retratado, de forma acronológica que possibilite ao leitor iniciar o texto em qualquer parte, também mostra que a reconstituição da história de uma vida supõe percepções sobre a trajetória de uma pessoa e não seu mais fiel retrato.

Não existe um verdadeiro biografado, apenas complexos pontos de vista sobre ele. O biógrafo assume que privilegia alguns desses pontos de vistas, mas os privilégios são aleatórios, baseados na própria viabilidade de acesso às informações. Tudo o que temos são lacunas, e elas são infinitas. Não é possível contar essas histórias como elas realmente ocorreram, então limite-se a tentar torná-las interessantes... (PENA, 2006, p. 93).

 

Todas as questões levantadas pelos estudiosos citados mostram o quão complexo é trabalhar a vida de um ser humano de forma jornalística. Isso porque tal processo demanda tempo, disponibilidade, pesquisa apurada e olhar crítico. Tudo isso possibilita ao biógrafo ter repertório suficiente para contar os principais feitos de seu biografado. Todavia, é bom tem em mente que não existe nenhum relato que abarque a totalidade de experiências vividas por uma pessoa; então, em decorrência dos fatores que o limitam, ao gênero biográfico cabe dar visibilidade às histórias contadas por quem tem memórias a relatar.

 

AÇÕES PRÁTICAS

Conforme dito anteriormente, a tarefa de escrever uma biografia requer muito mais do que prática de escrita. Por isso mesmo, alguns não a consideram como jornalismo puro e simples, por conta da profundidade que se exige tanto do processo de apuração, quanto da redação e da edição do material. Ora, se um livro sobre uma trajetória singular se tornará um referencial para seu público-leitor, é necessário que tal produto editorial seja impecável.

Logo no início deste texto, apresentou-se, por definição, a ideia de que a biografia é um dos braços do Jornalismo Literário; mas não há grandes acordos entre os jornalistas entrevistados para a pesquisa sobre esta definição. Eles acreditam que o esforço necessário para narrar com fidelidade o percurso de um personagem não é o mesmo que se espera para a composição de uma reportagem, principalmente por questões de produção.

Fica claro, portanto, que o conceito de “reportagem biográfica” é desconsiderado pelos referidos profissionais, que veem o termo “reportagem” como algo intimamente ligado à rotina produtiva dos veículos jornalísticos – que, na maioria das vezes, correm contra o tempo para trabalhar os conteúdos que oferecerão ao seu público. Nesse sentido, se há um ponto em comum entre a prática jornalística e o processo de produção de biografias, ele está na busca por informações completas e verídicas, e não no produto final.

Confesso que tenho uma certa alergia à expressão “jornalismo literário”. Jornalismo é jornalismo, e, para ser bem feito, precisa é de informação abundante, correta e clara. [...] Claro que todo jornalista deveria ter a obrigação de “escrever bem” – mas, se ele não for informativo, verdadeiro e inteligível, “escrever bem” não adiantará nada. [...] Quanto a chamar uma biografia de “livro-reportagem”, então, corto relações com que faz isso. O Tancredo Neves morre, o Collor é impeached, o Lula é eleito – e, 10 dias depois desses eventos, alguém solta um “livro-reportagem” feito de retalhos de matérias de jornais costuradas nas coxas. Como um trabalho [...] desses pode se confundir com o de uma biografia, que leva anos para fazer?[3]

 

Embora todos nós jornalistas que se dedicam hoje a escrever biografias tenhamos aprendido o novo ofício nas redações, ela vai além do que se costuma chamar de “reportagem biográfica”. Digamos que seja uma ampliação do termo, um mergulho sem parâmetros na imprensa, em que se faz necessário checar os mínimos detalhes, em que é imperativo seguir mínimos detalhes, em que é imperativo seguir mínimas pistas e em que se ouve uma quantidade considerável de testemunhos de um fato ou de uma passagem da vida do biografado. E, principalmente, em que não se sofre com o prazo em geral apertado das publicações em ativa.[4]

 

Do extenso leque de reflexões acerca das biografias, uma das que mais chama a atenção não só dos jornalistas que trabalham com o gênero, como também dos pesquisadores que se dedicam a estudá-lo, se refere às fronteiras de obstáculos e facilidades encontradas na hora de escrever a trajetória de pessoas vivas. E o debate ocupa várias frentes. Primeiro, há uma divergência sobre as contribuições que o biografado pode dar para a construção do texto a seu respeito: por um lado, as recordações de experiencias muito particulares (principalmente dos detalhes) é algo que jamais poderá ser feito por outra pessoa; porém, tomar como fonte o próprio personagem é uma situação que pode interferir no trabalho redacional do biógrafo, que não está imune de se fascinar e de se envolver com a trajetória de seu entrevistado.

Há também um segundo problema, talvez até mais grave: o personagem pode exigir ler os originais antes da publicação. Escrever sobre alguém, por mais isento que o jornalista seja, nunca é algo fácil: corre-se sempre o risco de elogiar ou criticar a postura da pessoa em determinados momentos, e a exigência de entregar-lhes os primeiros textos pode fazer com que as mudanças sugeridas induzam o biógrafo a construir um produto final essencialmente enaltecedor, comprometendo a própria qualidade da biografia.

Outra discussão é sobre o espaço de tempo abordado pelo jornalista. Durante o Seminário Carlos Rizzini[5], promovido pela Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) na Universidade de Taubaté (Unitau), em março de 2007, o professor Antonio F. Costella discursou a respeito daquilo que considera como “biografias definitivas”, ou seja, trabalhos que dão conta de traçar o perfil ideal de um ícone e, mesmo que – obviamente - não registre todos os acontecimentos de uma vida, não precisam ser complementadas por outras obras. Ao se trabalhar com o percurso de alguém ainda vivo, há a probabilidade de outros livros terem de ser escritos para preencher as lacunas originadas de momentos posteriores ao da primeira publicação.

Sobre tudo isso, os jornalistas entrevistados para este estudo também têm suas opiniões (divergentes). Regina Echeverria considera difícil o trabalho com pessoas vivas, principalmente por conta da omissão de informações importantes, que podem ser constrangedoras para alguém relatar sobre si mesmo; Ruy Castro, por sua vez, acredita que mesmo que sejam utilizadas outras fontes pessoais na hora da apuração, as pessoas acabam por se inibir (ou ter medo) ao falar suas verdadeiras opiniões sobre a personalidade a ser biografada; já Fernando Morais é um pouco mais otimista e se aventura a escrever esse tipo de biografias, ainda que tenha consciência dos entraves existentes, principalmente no período pós-publicação.

Nunca escrevi biografias de vivos. Acho muito difícil e delicado. Com mortos já é complicado, visto que as famílias em geral se sentem donas absolutas da verdade de seus parentes famosos. Prefiro, sinceramente, ter conhecido o personagem. Acredito que isso ajuda na construção da personalidade do biografado. No entanto, tenho duas experiências com personagens com quem não tive nenhum contato, como Pierre Verger e Mãe Menininha do Gantois. Nos dois livros tenho a mesma parceira: Cida Nóbrega, pesquisadora que conheceu os personagens, o que me ajudou bastante no momento de escrever o texto final.[6]

 

Não tenho o menor interesse em biografar vivos. Uma pessoa viva que mereça uma biografia terá de ser ouvida por mim – e, supondo que tope, vai aproveitar para mentir adoidado e me atrasar a vida. Além disso, se essa pessoa merece uma biografia, será poderosa o suficiente para pressionar todos os seus amigos (minhas possíveis fontes) e obrigá-los a mentir também. Ou seja, é impraticável. Da mesma forma, o morto recente também não é um bom biografado. Nos primeiros meses ou anos, ele deixa de ter defeitos para os amigos e conhecidos. É preciso que o morto já tenha pelo menos uns dez anos [...] para permitir às pessoas falar sobre ele com mais objetividade.[7]

 

É evidente que seu eu tivesse tido a oportunidade de passar uma semana, um dia que fosse, ou com o Chatô - que eu só vi morto, eu fui cobrir o enterro dele pro Jornal da Tarde, em 68 – ou com a Olga, eu teria, certamente, deito livros melhores do que fiz. Não há nada que substitua o olho do autor. Essa é a vantagem de poder fazer, a única vantagem de fazer a história de alguém vivo. Quando eu decidi fazer a biografia do Paulo Coelho, fui propor a ele, mas supunha que ele não ia topar, aliás eu achava até que não pudesse chegar perto dele, que fosse meio Pop Star, tipo Roberto Carlos, me lembrava a história do Gay Talese, Aos olhos da multidão, do Frank Sinatra estar gripado[8]... Primeiro, eu descobri que não é nada disso: ele não tem guarda costas, não tem secretária, não tem nada. É ele sozinho. Então, propus a ele fazer, depender da ajuda dele, da contribuição, mas com uma exigência: ele não leria os originais; iria ler o livro impresso, junto com todos os leitores. No caso da Olga – com o Prestes, e com a Anita Leocádia (com o viúvo e com a filha dela) -, e no caso do Chatô, com os dois filhos dele que mais me ajudaram – o Gilberto e a Teresoca -, eu disse: “Olha, vocês estão me ajudando, estão dando contribuição, estão dando material, estão dando depoimento, contando coisas da intimidade, mas vocês não vão ler os originais”. Eles toparam. Facilita muito. Mas qual é o problema? Eu me lembro que quando o Prestes estava vivo ainda, várias vezes propus fazer a biografia dele, e ele já com 90 anos dizia: “Não, é cedo ainda, porque você escreve a biografia, publica agora, e depois se eu viro um bandido, me perco pela vida...” (isso com os seus 92, 93 anos). No caso do Paulo, é uma biografia datada, do nascimento até os 60 anos; daqui a 60 anos, se alguém quiser fazer Paulo Coelho dos 60 aos 120, vai estar liberado. O risco de fazer a biografia de alguém vivo é o depois e não o durante, porque durante a apuração é idêntica a que se faz no caso de um morto. No caso do Antonio Carlos Magalhães, tem dez anos que estou trabalhando e, ao contrário do que ele costumava dizer em público, não estou esperando ele morrer pra publicar, porque não quero que seja biografia datada, embora seja de um vivo. Então, quero esperar a hora que ele encerra a carreira (porque vai chegar um momento em que ele vai ter que encerrar); porque imagine se eu publicasse o livro hoje e, ele, daqui a dois anos, sai candidato a Presidente da República: o livro vai embrulhar peixe na feira, vai estar absolutamente superado.[9]

 

Quando se fala em experiências tão particulares, como as de recontar a história dos outros, é difícil encontrar consensos. Porém, se há ponto em comum entre as definições que os biógrafos estabelecem para a biografia, seu nome é hibridez: todos eles acreditam que é impossível pensar gênero como fruto de uma única ciência. As dimensões dos processos de apuração, redação e edição são fortes sinais de que o diálogo de saberes é necessário para a realização de um trabalho completo e bem feito.

Dessa forma, entende-se que quanto mais diversificada e heterogênea for a busca por conhecimentos e informações a respeito do biografado e do contexto sócio-histórico-cultural em que seu percurso foi traçado, muito maior será a qualidade do livro preparado pelo jornalista.

A biografia é um processo híbrido e abrange várias disciplinas. Se fosse ensinada em faculdades, a qual faculdade deveria pertencer? História (já que é nitidamente um ramo dela), Jornalismo (já que envolve métodos de apuração próprios dos jornalistas), Letras (já que exige um vasto conhecimento literário e mesmo cultural do biógrafo) ou todas elas (já que exige um pouco de cada uma)? Uma reportagem é um trabalho acabado: o repórter vai ao local do crime, ouve umas tantas pessoas e “reporta” o que apurou, num texto rápido, curto e direto. Já uma biografia exige um trabalho de anos e precisa cercar o biografado por inúmeros lados. Muitas vezes, o biógrafo é obrigado a estudar assuntos que nunca lhe interessaram muito, mas que, por fazerem parte da vida do biografado, de repente precisam dominar. Exemplos: política da República Velha no livro O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues; migrações e costumes de populações indígenas do Nordeste no livro Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha; imigração e colônia portuguesa no Rio no começo do século XX no livro Carmen: uma biografia.[10]

 

[O jornalismo, a literatura, a história e outras áreas do conhecimento, como a psicologia e a antropologia] se encontram no ponto em que é preciso uni-las numa narrativa clara, objetiva e recheada de poesia. Numa narrativa que fascine o leitor, que o faça efetivamente chegar ao fim do livro. Para mim, é o que interessa.[11]

 

O grande destaque conquistado pelas biografias dentro do mercado editorial, conforme mencionado anteriormente, advém da curiosidade que o ser humano tem em conhecer a intimidade do outro. Nesse sentido, nada mais natural que esse interesse parta, num primeiro momento, do próprio biógrafo, que de alguma forma se sente motivado a mergulhar no universo de uma determinada figura. Uma relação, no mínimo, curiosa. É como se o jornalista, ao se deparar com tal história se entretece por ela ao ponto de querer não apenas guardá-la para si, mas também desejar que muitos a conheçam.

Quando decido que vou explorar a vida desta ou daquela pessoa, e começo a vasculhar meus arquivos para ver o que tenho dela, descubro que já tenho muita coisa – toda a obra teatral e literária do Nelson, dezenas de revistas sobre Garrincha, centenas de gravações e recortes sobre Carmen -, como se, há anos, eu já viesse me preparando em segredo para fazer aquela biografia. Em segredo até de mim. Significa que aquela pessoa já estava entranhada em mim havia anos, e só eu não percebia. E muita coisa elas têm de ter para me interessar tanto: a obra (que eu preciso admirar), a vida (que, pelo pouco que eu saiba dela, precisa ter muitos altos e baixos e peripécias), os coadjuvantes (as pessoas em volta também precisam ser muito interessantes), o entorno (a cidade ou cidades em que a história se passa têm de ser fascinantes) e a época (idem, idem). Se não atender essas exigências, não tem papo. Talvez por isso eu seja incapaz de atender a uma encomenda, e só possa biografar pessoas que já fazem parte de mim desde sempre. E o que me motiva a dedicar anos à vida desse personagem pode ser o amor (Nelson), a compaixão (Garrincha) ou o “tesão” (Carmen) que sinto por ele ou ela.[12]

 

É preciso que a história me conquiste antes de conquistar o leitor. O grande obstáculo é a falta de memória para acontecimentos, casos, histórias do cotidiano. Em geral, as pessoas têm uma opinião a respeito dos personagens, mas pouco se recordam de acontecimentos que, na verdade, sempre dão sabor ao relato biográfico. Histórias de vida me interessam. Tem sido assim desde que comecei na imprensa, em 1972. Tenho procurado usá-las como fio condutor do relato de uma época, dos meus costumes, cultura, situação política e econômica. Enfim, são amplas as possibilidades quando resolvo escrever uma biografia.[13]

 

Dentro desse contexto, ainda poderia se dizer que uma das dificuldades que o biógrafo encontra ao registrar a vida de uma pessoa é a filtragem das informações a serem utilizadas no produto final. Por mais que o texto seja bem subsidiado e os apontamentos sejam precisos, é impossível registrar todos os dias de uma vida - aliás, muitos deles sequer são lembrados. Por outro lado, também é impossível incluir em uma única obra todo o material colhido durante um longo período de trabalho. E, além disso tudo, há sempre a possibilidade de que, após o livro ter sido concluído, chegue às mãos do escritor uma informação complementar sobre a história por ele relatada, o que certamente o levará à reflexão sobre a necessidade (ou não) de reavaliar o esforço concluído.

Uma biografia leva anos sendo feita – dois (Nelson), três (Garrincha), cinco anos (Carmen) -, sem contar o que o biógrafo já sabe (ou pensa que sabe) do biografado antes de começar o trabalho. Nesse período, ele fala com muita gente – digamos 200 pessoas, a uma média de cinco vezes cada uma. É muito difícil que, no decorrer desse período e do número de fontes, uma coisa verdadeiramente importante escape ao seu conhecimento. Se foi importante, alguém vai falar um dia. O mesmo se aplica à avaliação dos momentos na vida do biografado, e é isso que determina a valorização maior ou menor deles. A partir de certo momento, a intimidade do biógrafo com o biografado é tanta que a história quase vai se apurando sozinha. Não tem mistério.[14]

 

Para fazer um livro como o do Chatô, que tem 800 páginas, se descarta outros três livros de 800 páginas. Eu, uma vez, brinquei que o subtítulo do Chatô poderia ser “melhores momentos”, porque no fundo é isso. Não cabe. Você levanta uma quantidade tão grande de informações, que não cabe em um livro só, sobra no fim (não tem sentido fazer um livro de 2.000 páginas). Agora, eu não mexo. No Olga, por exemplo, anos depois de ele ter sido publicado, o Willian Waack fez uma reportagem sobre os arquivos que foram abertos em Moscou, com informações novas sobre a participação dos estrangeiros na revolta comunista de 35. Tudo bem. Isso não mexe com o livro. Eu nunca mexi, tenho oito livros publicados – o único livro que eu acrescentei alguma coisa foi em A Ilha, quando o livro fez 30 anos e me sugeriu que eu voltasse a Cuba pra rever Cuba 30 anos depois e fizesse um capítulo adicional, abrindo o livro, mostrando isso: o que eu havia visto antes e comparando com a Cuba de hoje. Mas não mexo no que está pronto.[15]

 

Sem sombra de dúvidas, escrever sobre uma pessoa – seja ela famosa ou não - é uma tarefa instigante e enriquecedora. E são inúmeras as possibilidades desse feito, assim como também são grandes os desafios para realizá-lo. Mas o que importa, no final das contas, é que a produção de biografias, especialmente no Brasil, tem um significado muito maior do que seu aspecto mercadológico: trata-se de um produto editorial que gera empatia, promove um passeio por diversos cenários e momentos históricos, estabelece um pacto de intimidade entre o biografado, o biógrafo e o leitor.

Pelas experiências de Regina Echeverria, Ruy Castro e Fernando Morais, compartilhadas nestas linhas, percebe-se que a biografia é um gênero que vai muito além da técnica e da captação de informações. É um exercício complexo que envolve conhecimento, habilidade, disposição, seriedade, persistência e diálogo entre elementos humanos. E é por isso, talvez, que resulta em algo sempre interessante.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As discussões apresentadas aqui, elaboradas com base nas reflexões de teóricos e nas vivências profissionais dos jornalistas-biógrafos, são apenas um recorte sobre os limites e as possibilidades do gênero biografia. Muitas outras ideias podem ser levantadas, inclusive sobre outras formas de escrever histórias de vida, que não as tradicionais.

Os argumentos destas linhas sugerem que para se escrever sobre uma pessoa, basta que ela tenha uma história interessante. Embora os entrevistados aqui abordados tenham se dedicado a escrever sobre a vida de celebridades, não é preciso ser famoso para servir de fonte para uma biografia.

As melhores histórias de vida não são aquelas que estão distantes do jornalista, mas, sim, as que estão bem próximas de seus olhos. Basta um olhar mais apurado e, pronto, esse profissional certamente encontrará um bom personagem.

Refazer os passos de alguém, descobrir as histórias que refletem em tal trajetória, trazer à tona situações escondidas pelo esquecimento e revelar fatos inusitados é, portanto, uma empreitada que leva em consideração os mais variados aspectos da personalidade do biógrafo, que vão desde sua sensibilidade até a exatidão com os processos de construção do texto.

Conforme diz o site TextoVivo, todo mundo tem direito a uma biografia. Os jornalistas que colaboraram com este estudo sabem disso e, um dia, provavelmente, alguém enxergará neles bons motivos para que suas trajetórias se tornem histórias relatadas em livros. Muitos dos que lerem este texto também poderão passar por essas experiências - na posição de biógrafo ou de biografado – e, então, compreenderão ainda mais a necessidade desse diálogo entre vidas.

 

REFERÊNCIAS

CHAIA, M. Biografia: método de reescrita de vida. In: HISGAIL, F. (Org.). Biografia: sintoma de cultura. São Paulo: Hacker/Cespuc, 1996. p. 75-82.

GOBBI, M. C. Método biográfico. In: DUARTE, J.; BARROS, A. (Org.). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 2005. p. 84-97.

HISGAIL, F. Aparte biográfico. In: ____________. (Org). Biografia: sintoma de cultura. São Paulo: Hacker/Cespuc, 1996. p. 7-12.

MEIHY, J. C. S. B. Manual de Histórial Oral. São Paulo: Loyola, 1996.

PENA, F. Jornalismo Literário. São Paulo: Contexto, 2006.

VILAS BOAS, S. Biografias e biógrafos: jornalismo sobre personagens. São Paulo: Summus, 2002.

VILAS BOAS, S. Perfis e como escrevê-los. São Paulo: Summus, 2003.

 



[1] O site TextoVivo pode ser acessado no endereço www.textovivo.com.br.

[2] Ghostwriter (escritor fantasma, em português) é o profissional especializado em prestar serviços de redação de textos a pessoas que não têm tempo ou não levam jeito para escrever. Ele trabalha silenciosamente, recebe sua remuneração e depois fica no anonimato, mantendo inviolável o segredo de sua participação naquela obra.

[3] Entrevista concedida pelo jornalista Ruy Castro, em 29 de janeiro de 2007, via e-mail.

[4] Entrevista concedida pela jornalista Regina Echeverria, em 31 de janeiro de 2007, via e-mail.

[5] Evento realizado em comemoração aos 30 anos da Intercom, que teve como tema “Biografia, gênero híbrido: cruzamentos do Jornalismo com a História e a Literatura”.

[6] Entrevista concedida pela jornalista Regina Echeverria, em 31 de janeiro de 2007, via e-mail.

[7] Entrevista concedida pelo jornalista Ruy Castro, em 29 de janeiro de 2007, via e-mail.

[8] Repórter do The New York Times, Gay Talese tentou escrever um perfil de Frank Sinatra com base em depoimentos do próprio cantor. Mas, no dia da entrevista, Sinatra estava gripado e de mau humor, razões que o levaram a não conversar com o repórter. Talese, porém, não se deu por vencido e passou o dia a observar o pop star à distância. Com base em suas percepções, escreveu os textos “Frank Sinatra está resfriado” e “Como não entrevistar Frank Sinatra”, publicados no Brasil, em 1973, na coletânea Aos olhos da multidão e, em 2004, no livro Fama e Anonimato.

[9] Depoimento concedido pelo jornalista Fernando Morais, durante entrevista coletiva realizada na 5ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 6 de julho de 2007.

[10] Entrevista concedida pelo jornalista Ruy Castro em 29 de janeiro de 2007, via e-mail.

[11] Entrevista concedida pela jornalista Regina Echeverria, em 31 de janeiro de 2007, via e-mail.

[12]

 Entrevista concedida pelo jornalista Ruy Castro, em 29 de janeiro de 2007, via e-mail.

[13] Entrevista concedida pela jornalista Regina Echeverria, em 31 de janeiro de 2007, via e-mail.

[14] Entrevista concedida pelo jornalista Ruy Castro, em 29 de janeiro de 2007, via e-mail.

[15] Depoimento concedido pelo jornalista Fernando Morais, durante entrevista coletiva realizada na 5ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 6 de julho de 2007.

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